quinta-feira, 13 de março de 2014

Conto - I Knew You Were Trouble (Parte I)

Postado por Unknown às 23:33
Era uma tarde normal de sexta-feira, eu estava no meu quarto ouvindo música nos fones de ouvido, como de costume. Era só um aquecimento de energias para a noite de hoje, aonde eu iria a uma festa com minha melhor amiga. Era uma das primeiras desde o término do meu último relacionamento, quando o Leo arrumou as malas, pegou seu passaporte e foi para os Estados Unidos com uma louraça sem nem me dar tempo de acenar o lencinho no aeroporto. Eu sabia que a noite seria divertida, eu sentia falta disso e já não sentia mais falta do Leo. Não tinha vontade de paquerar, apenas de me acabar na pista de dança, e sabia que o faria. 
                O shuffle do iPod me trouxe uma música conhecida, cuja letra eu sabia decorada. Contava a história de uma menina que sabia que o cara iria machucá-la, mas se entregou a ele mesmo assim. Clichê, pensei comigo mesma, ainda que nunca tivesse acontecido comigo. Deixei a playlist rolar e cantei junto as minhas batidas preferidas debaixo da ducha gelada.
                Banhada, penteada, vestida e maquiada, fui à festa, já dando de cara com minha amiga e correndo atrás dos meus bons drinques. “Fraquinho, por favor,” pedi ao barman, assim poderia aproveitar a minha noite inteira. Assim que consegui pegar minha batida de morango e sair do meio da fila anarquista, fui sentar-me à mesa, a única cadeira vazia estava de frente para a porta da boate. E assim que olhei, a porta se abriu.
                Era o Marcelo. Um dos caras mais lindos que já tinha visto na vida, e bem me lembrava dele. Era do tipo que manda-sms-no-dia-seguinte, com cantadas tão idiotas que nem o pedreiro da construção da rua Trinta teria coragem de fazer. Ah, e “eu te amos” de madrugada. Aposto meu scarpan de oncinha que ele nunca mandava esse tipo de mensagem enquanto sóbrio, e cada SMS que eu recebia dele parecia criptografar a seguinte mensagem: canalha. Sabe aquele cara que é gato, sabe que é gato, e aproveita para virar canalha e partir corações de menininhas? Então, eu não posso dizer isso dele porque aí já seria julgar demais, e não gosto desse tipo de coisa contra mim. Mas ainda que tenhamos nos conhecido em uma situação, digamos, fofa demais para um cara desse tipo, o olhar, o jeito de falar e de andar ao entrar no salão de festa não enganavam.
                (Ah, flashback de quando nos conhecemos:)
                Estava eu na secretaria do clube, me inscrevendo para ser monitora da colônia de férias, quando ele apareceu, pedindo licença para entregar à secretária uma foto 3x4. Enquanto eu preenchia os papéis e ele a aguardava fazer o que tinha de fazer, ele me observava. Até que ela não aparecia, e eu já estava ficando incomodada. Por fim, me virei para ele:
                - Não se pode fazer uma inscrição sem se sentir no Big Brother?
                Foi quando percebi como ele era lindo, e comecei a me sentir arrependida-barra-envergonhada por ter sido indelicada. Ele se assustou, mas me respondeu com voz doce:
                - Perdão, não foi minha intenção. Só queria ver para que você estava se inscrevendo... Milena, não é?
                - Está tudo bem, agente 007. Milena sim, e você?
                - Bond. James Bond.
                Suspirei.
                - Por que será que eu já imaginava que esse seria o seu nome?
                - Na verdade não é, é Marcelo. Mas você ainda não respondeu...
                - Ah. Estou me inscrevendo para ser monitora da colônia de férias. Uma semana de trabalho voluntário com crianças... revigorante.
                - Sério? Eu também!
                Foi quando a secretária voltou,dizendo que sua situação estava regulamentada e sua nova carteirinha ficava pronta em dez dias úteis. Algo me dizia que no fundo, se inscrever como monitor não era o objetivo dele ao entrar naquela secretaria. Pediu um formulário para preencher e pôs-se ao meu lado, tentando, em vão, puxar assunto: eu já havia terminado de preencher o meu.
                - Até a colônia então, Bond.
                - Te vejo lá.
                Por mais incrível que parecesse, ele era um amor com as crianças. Éramos os monitores mais novos, e responsáveis sempre pela mesma área da colônia: a de oficinas de pintura e escultura de argila. No primeiro dia ele puxou assunto. No segundo, conseguiu acalmar o garoto-problema que só criava confusão na oficina e salvar a minha pele, me arrancando um sincero agradecimento. No terceiro, eu já comecei a perceber que ele me olhava diferente, e começava a me tocar também. Ora no meu ombro, ora na minha mão. É, ele estava flertando. No quarto dia, ele me surpreendeu. Mesmo com as mãos sujas de argila e o rosto sujo de tinta, ele me elogiou.
                - Alguém já te disse que você é linda?
                - Suja de tinta? Confesso que é a primeira vez.
                - Suja de tinta, - disse sorrindo e sujando a ponta do meu nariz com tinta vermelha, enquanto segurava uma flanela com a outra mão, que fiz usá-la para limpar-me.
                E no quinto dia ele me beijou. Como as crianças já haviam terminado suas obras de arte, o quinto dia era de arrumação da salinha, limpeza de pincéis, mesas e cadeiras. A coordenadora do clube me conhecia e confiava em mim, então me deixou a sós com ele na sala sem titubear. Confesso que esperava e agradecia por isso, pela oportunidade perfeita, que eu só estava esperando chegar. Mas não foi tão perfeito assim. Fomos interrompidos pela própria, entrando na sala. Tivemos tempo de nos afastar, e também agradeci por isso. Naquele momento a mão dele começava a descer pelas minhas costas e eu não sabia onde ela queria chegar.
                Falando assim, ele parecia um príncipe encantado de filme Hollywoodiano, mas no meio de conversa, sempre dava uns foras. Comentava de suas amizades, nomes conhecidos (em maioria, por coisas nada boas), mostrando o quanto ele era popular e com moral. Também explicitava seu “tipo de mulher”, o que era extremamente irritante, por mais que eu me encaixasse nele. Com um pouquinho de olhar clínico, dava para saber que o mais prudente a se fazer com ele era ter um pé atrás. Porém, unindo o útil ao agradável, nada melhor que trabalho voluntário no currículo + beijinhos de um super gato nas férias. É, eu não tinha o que reclamar.
                (Fim do flashback)
                


Continua...

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